Arquivo do mês: outubro 2014

O que fizeram das águas de Goiás?

Eliminação da cobertura vegetal de nascentes e margens, poluição e ocupação inadequada de seus entornos ameaçam os mananciais goianos

Se o assunto é água, a terra do pequi conhecida também como o coração do Brasil é um território privilegiado. O potencial hídrico do Cerrado dá ao bioma o título de Berço das Águas. Nomeação que os goianos não reconhecem o seu valor, como prova disso são: a eliminação das coberturas vegetais de nascentes e margens de rios, poluição e ocupação inadequada de seus entornos, que estão ameaçando um processo de minguamento e em alguns casos o desaparecimento dos cursos d’água.

Goiás possui 11 regiões hidrográficas que drenam suas águas para as bacias do Paraná, Araguaia-Tocantins e São Francisco. Conforme o gerente de apoio ao sistema de gestão de recursos hídricos da Secretária Estadual do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), João Ricardo, no Estado existem rios e córregos intermitentes, que são temporários, que desaparecem no período de estiagem. Por isso ocorre a seca de grandes rios que estão localizados principalmente na região centro-norte.

Entretanto, neste ano, é possível observar os cursos d’água que são perenes – aqueles que contêm água todo o ano – com o seu nível de água bem abaixo para o período. Para João Ricardo as mudanças climáticas intensificam a ocorrência de secas prolongadas. Aliadas a elas, o desmatamento, a expansão agropecuária e urbana, associada ao uso inadequado do solo que provocam a probabilidade de diminuir a quantidade de água dos córregos e rios.

“Existe uma cultura da população acreditar que temos abundância de água, mas o que não é verdade. É preciso pensar que a água é o único recurso, que não existe um plano B para suprir caso aconteça algo, ao contrário da energia, por exemplo, que podemos recorrer à energia nuclear, eólica e solar”, pontua João Ricardo.

Goiânia

Goiânia possui 85 cursos d’água sendo, quatro ribeirões, 80 córregos e um rio – o Meia Ponte, de acordo com a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma). As nascentes dos córregos Buriti, Botafogo, Cascavel e Macambira estão secas atualmente. Quem afirma é o delegado responsável pela Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema), Luziano Severino de Carvalho e o representante em Goiás da Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH) e vice-presidente do Comitê da Bacia do Meia Ponte, Marcos Correntino.

“As nascentes destes córregos deixaram de existir, esse é o termo correto de usar. Para cada nascente existe um curso d’água, se essas nascentes sumiram da mesma forma desapareceram os cursos d’água o que influencia diretamente no nível de água dos córregos e rios”, explica Marcos Correntino.

Vale destacar que o ano de 2014 se destaca como o pior nível hidrológico da série histórica iniciada em 1931, no Brasil. Porém, para o representante em Goiás da ABRH, a degradação e destruição dos mananciais goianos é o preço que toda a população paga pela especulação imobiliária, pelos desmatamentos de margens, lançamento clandestino de esgoto e de entulho nas águas, assoreamento e a ocupação irregular de faixa de Zona de Proteção Ambiental (ZPA-I).

Correntino ainda denuncia que a falta de conscientização da população, o descaso e a ineficiência do poder público em todas as suas instâncias poderão provocar em Goiás nos períodos de seca graves crises de água.

Já o professor do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (UFG), Luis Felipe Soares, afirma que o que está acontecendo é a alteração do fluxo do ciclo hidrológico. “Eventos intensos de chuvas têm sido mais comuns, ocasionando inundações de maior ordem, ao mesmo tempo em que a estação seca tem se prolongado, reduzindo a vazão em canais fluviais”, diz. Na opinião do professor, a água tem sido usada simultaneamente para o abastecimento público, em grandes projetos de irrigação, na produção de energia elétrica, o que muda a distribuição dentro do ano hidrológico.

Ainda conforme Luis Felipe, caso o cenário de oscilação climática se perpetue por um tempo maior, as implicações serão, de fato, redução da disponibilidade de água nos rios, prejudicando a integridade de todas as fitofisionomias do Cerrado em Goiás.

Irrigação

A agricultura irrigada é o setor que mais absorve volume de água demandada, o que varia de 2 a 12 vezes o volume para o abastecimento urbano e rural nas diversas regiões do País. O que torna o conflito mais agudo é o fato de que na época do ano em que o consumo para abastecimento e irrigação aumenta, a disponibilidade de água é menor. Nos últimos anos, houve o incremento da irrigação em todas as regiões hidrográficas, em geral, as taxas superiores ao incremento da área total plantada. Essa atividade foi a principal responsável pelo aumento de 29% da retirada total estimada para o País, entre 2006 e 2010. Nesse período, a vazão de retirada para irrigação aumentou de 47% para 54%.

De acordo com a edição 2013 do Relatório de Conjuntura dos Recursos Hídricos, apresentada pela Agência Nacional de Águas (ANA), a vazão de água concedida em Goiás no intervalo de agosto de 2011 a julho de 2012, 49% foi destinada para a irrigação e 2% para o abastecimento público.

Consumo, estiagem e falta de chuva

O desperdício da população, somada com o aumento do consumo de água e energia nos últimos anos, além da estiagem e a falta de chuvas regulares no verão, assustam alguns especialistas.

Conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 40% do potencial hídrico no País é desperdiçado. Diferentes autoridades argumentam que se a conta de água fosse mais cara, o consumo seria mais racional. O preço da tarifa de água no Brasil é considerado baixo para os padrões internacionais. A Global Water Intelligence mostra que enquanto a tarifa média aqui está em torno de US$ 1,50 por metro cúbico, na Dinamarca, por exemplo, o valor é cinco vezes maior.

No Oriente Médio, a vegetação desértica e a falta de recursos hídricos fazem com que a água se torne tão valiosa quanto o petróleo. Contudo, a escassez fez com que os países desenvolvessem a mais alta tecnologia de dessalinização e tratamento de água. Em algumas regiões, por exemplo, quase toda a água tratada é reaproveitada para irrigação no deserto.

Reservatórios

O nível dos reservatórios das hidrelétricas no subsistema Sudeste/Centro-Oeste (SE/CO), o principal do Brasil está em 19,54%, de acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), dados desta semana. A superintendente de Política e Programa de Pesquisa e Desenvolvimento de Goiás, Rosidalva Lopes, esclarece que a quantidade de chuva neste ano para o Estado de Goiás não foi suficiente para a agricultura e a energia. “Dentro da climatologia a chuva que caiu foi esperada, entretanto não chegou na hora certa porque houve um atraso. O que era esperado para dezembro e janeiro, só chegou em fevereiro e março”, informa.

Diante desta realidade, os especialistas asseguram que em Goiás é preciso investir na conscientização dos diversos usuários, setores público e privado, além da implementação dos comitês, formação das agências e fiscalização para que os goianos não corram o risco de perder sua riqueza, que é a água.

“Em curto prazo precisamos fazer o uso racional da água. É preciso saber utilizar, aproveitar esse recurso da maneira correta. Mesmo com a seca e a mídia divulgando o caso de São Paulo é fácil encontrar pessoas desperdiçando água. Já em médio e longo prazo, além de uma boa gestão que organize a demanda de água e os recursos é preciso recuperar nascentes, solos e matas para reverter a influência do homem no meio ambiente”, declara o gerente de apoio a sistema de gestão de recursos hídricos da Semarh.

“As nascentes destes córregos deixaram de existir, esse é o termo correto de usar. Para cada nascente existe um curso d’água, se essas nascentes sumiram da mesma forma desapareceram os cursos d’água o que influencia diretamente no nível de água dos córregos e rios”  (Marcos Correntino,vice-presidente do Comitê da Bacia do Meia Ponte).

Maria Planalto (Editoria de Cidades / Jornal Diário da Manhã)

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